Cidade

novembro 02, 2009

Girls winter sea
Estava um lindo dia. As pessoas vestidas de Vermelho lembravam-me a monotonia da Cidade. Saí de casa de guarda-chuva na mão e mala ao ombro. Com rumo a destino nenhum, caminhei sem a pressa da Cidade. Entrei no café para comer qualquer coisa: Um misto e um sumo, se faz favor. Folheavas um jornal e de quando em quando lá te lembravas de levar a chávena à boca. Notebook aberto mas não ligado - reparei - só pode ter sido distracção - pensei. Pensei também em falar-te, mas envolvida pelos vícios da Cidade deixei-me ficar. Com o jornal enfiado na cara pagaste o café, guardaste o Notebook e saíste com a pressa de quem nada faz. É sábado, e aos sábados não se trabalha, bem sei. Agora que foste, parece que a mulher que me fala, fala mais alto. Fala-me desde que cá cheguei e nem a conheço. Fala-me de algo, ainda não percebi bem do quê, mas vou respondendo que Sim. Os gritos frenéticos de uma criança, fizeram-me pagar a conta e sair o mais rápido possível do café. Já não aguentava mais. O céu está lindo, mas tenho de ir ver o mar, mesmo que chova. Entrei no comboio mas ia perdendo-o. Sentei-me à janela, meti os phones e liguei o mp3. Saí num sítio qualquer que tinha praia. Cá de cima já dava para ver o mar, mas queria vê-lo de perto, senti-lo, ouvi-lo. Desci, tirei os sapatos e caminhei para o areal. Lá estavas Tu, outra vez, mas agora de jornal em baixo do braço e concentrado na fúria das ondas. Não queria cruzar-me contigo, por isso saí dali e voltei a calçar os sapatos. Mas o vento segredou-te a minha presença, olhava para ti quando voltavas costas para o mar. Pus-me a subir as escadas. Vou a outra praia - pensei. Ouvi, num só grito o meu nome, foste tu, disso não me restavam dúvidas. Com o intuito de pensares que te tinhas enganado continuei a subir. Mas não te enganaste, e disso sabias tu muito bem. Fizeste o mesmo caminho que eu, mas com alguns passos de distância. Rapidamente entrei e a porta de vidro trancou-se, ainda te vi correr, e com toda a tua força, esmurraste o vidro. Cá dentro o silêncio dos teus punhos a baterem no vidro davam-me a certeza que este mortificava a tua voz berrante e ofegante. Quando me viste afastar, vi-te desistir. Caminhas-te para o nada. O som do silêncio esboçou-te em tons pouco nítidos de amarelo e cinzento. E por entre cores e sabores, já nem sei quem és. Agora o telemóvel silenciosamente toca, és tu, mas não vou atender. Se me conheces tão bem com um dia disseste conhecer, sabias que não atendo chamadas de desconhecidos.

You Might Also Like

0 comentários

Subscribe