Cliché

março 21, 2010

noite luzes estrelas
Escura era a noite que silenciosa e serena seguia-me como uma sombra, outrora rejeitada. Andava eu, com passos pequenos e assustados, por campos sem vida nem luz. Sozinha? Não completamente, sentia-te a ti. Tão imóvel como este silêncio que nos envolve nesta noite fria, imóvel porque não ouvia o teu esmagar a relva seca. A tu respiração entrevia com a minha de forma tão imperceptível que, não sei precisar a distância que nos separara. Caminhei, sem direcção, ouvi o esmagar da relva, eram os meus passos. Sorri, talvez por ainda encontrar-me neste campo que nem fim sei se têm, ou talvez por ouvir um outro esmagar da relva que não o meu. Senti-te próximo. Tacteavas o ar e acabas-te por sentires-me a mim. Ao contrário da minha mão, a tua encontrava-se quente, bastante quente. Aproximei-me de ti, e sem me dares tempo, envolveste-me com os teus braços. Apertaste-me contra ti com tanta força que os meus medos dissiparam-se no ar, agora nosso. A cada segundo, apertavas-me com mais força, e eu?! Eu esqueci-em das vezes que vi a chuva sentada à janela, gelada em dias de inverno, a beber aquele chá, que dizias maravilhoso, mas que para mim não era mais que a água quente que me envolvia o coração em dias de mar menor. Esqueci-me das vezes que sentei-me no chão, sem as forças que usei para lutar contra mim mesma, lutei contra mim, porque lá bem no fundo a culpa era tão minha que não chegava a ser de mais ninguém. Esqueci-me das vezes que te pedi para não falares, para não vires, para poder ouvir a chuva sentada à janela, ou o tic-tic-tac-tic-tac-tac dos meus relógios, descoordenados, sentada no chão. Esqueci-me das vezes que não me entendias, aparecias e interrompias, a música que tocava só para mim, que me fazia sentir como um cisne ou uma pluma a pousar no luar. Não entendias e interrompias, os meus momentos só meus em busca dos meus silêncios perdidos. Desculpa, mas também esqueci-me da primeira palavra que me disseste. Esquecida a dor, as lágrimas, os vazios deixados em mim, as perguntas, os silêncios, o chá, a chuva, os tic-tac dos relógios... Esquecidas as palavras e até mesmo o teu olhar, abracei-te também. Lembrei-me agora de ti, e do primeiro sorriso abriste só para mim. Estava escuro mas ainda assim vi-te, estavas tão nítido como num sonho, no vazio do escuro que outrora foi noite... Pintaste os olhos de claro, cliché à menino de passerelle.

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