«Um amigo do teu pai costuma estar aqui, a morrer»

agosto 04, 2011

Homeless
Olhei para a calçada gasta pelo tempo e polida pelo uso, estava suja. Não consegui imaginar quem quer que fosse passar ali os dias, sentado, pacientemente à espera de um milagre, consciente que o mais certo é que a morte chegue primeiro. Não muito depois, numa semana qualquer voltei ao mesmo local, voltei a subir aquela pequena rampa de três metros talvez e de pouca inclinação, que tantas vezes na minha vida já subi para sair daquele minipreço tão bem localizado (sem ironias) . Olhei e li a pequena frase em maiúsculas escrita num pedaço de um qualquer cartão. Não me recordo do que li, do senhor apenas que estava com a cara coberta por uma espessa barba e de corpo vestido à inverno. Tinha pernas e braços assim como mão e pés. Sabia falar, via e ouvia também, não era magro e tresandava a vinho, ou a qualquer outra bebida alcoólica.  Perguntei se era aquele o tal amigo do meu pai. Com a resposta negativa o meu pensamento divagou para lugar nenhum... Aquelas pequenas e sujas, embora brilhantes pedras da calçada eram decerto um bom sítio para despedir da vida, para recordar os bons momentos se o álcool assim o permitir e esperar, pacientemente esperar, com a esperança de quem espera ganhar o euromilhões sem ter jogado, por um milagre, ou na pior das hipóteses, uma morte menos dolorosa que a vida. 

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