Medo da escola

fevereiro 15, 2016

Eu tinha medo de ir para a escola, mas nunca o disse a ninguém. Não desde sempre, nos primeiros dias eu estava entusiasmada, como ia mudar de casa (a meio do ano lectivo) iniciei o primeiro ano já na escola da zona da minha futura residência, amigos novos - e por mais assustador que isso possa ser para muitas crianças, não me preocupava. Quando comecei a ter medo de ir para a escola? No primeiro ano, quando fui repreendida por ter pintado uma casa de roxo, no meu próprio desenho! A professora gritou comigo por ser demasiado irrealista, porque no mundo real não existiam casas roxas - apenas brancas, cor-de-rosas e amarelas, como mais tarde explicou-me, ainda aos berros. 

A partir desse dia ir para a escola nunca mais foi a mesma coisa. Eram constantes as vezes que tinha recados no caderno, porque não sabia desenhar bem uma ou outra letra (nomeadamente o G maiúsculo e o o minúsculo) - a do o foi pior; todas as semanas a professora repreendia-me por não desenhar a perninha do o minúsculo, eu apenas desenhava uma bola - na minha cabeça era mais importante saber distinguir quando usar o o ou o u e não desenhar as letras na perfeição. No meu ponto de vista de criança para além de repreendida, era bastante vezes intimidada pela professora. Ao medo de ir para a escola, acrescentou-se o medo de já na escola ir ao quadro, de errar, de ser gozada.

O último ano da primária foi o pior, mas também o melhor de todos. Nesse ano o meu medo era enorme. Sabem aquela criança que de dez em dez minutos está a pedir para ir à casa de banho? Sim, essa era eu. Ia para a casa de banho fazer tempo, olhar para as paredes ou subir em cima da sanita e ficar a ver a vida passar pela janela. Nesse ano cheguei a fingir estar doente para não ter de ir para a escola. Funcionou. Mas nesse mesmo ano as coisas também melhoraram quando a professora mudou-me para a mesa da rapariga mais inteligente da sala. Não éramos amigas, apesar de partilharmos a mesma sala há três anos. O dia em que me mudei de mesa, foi também o dia de receber os ditados - o pior dia para mim. E se o texto tinha 50 palavras, eu dei 50 erros. Sim leram bem. A rapariga acabou por ver o meu resultado vergonhoso, e olhou para mim e disse: 

- Se quiseres ajudo-te a melhorar, chegas ao final do ano a dar menos de dez erros, mas tens de querer

Ela disse isso antes de me criticar e/ou gozar como todas as outras pessoas faziam comigo (colegas, professora, irmãos). Foi uma atitude que me marcou e nunca mais saiu da minha memória. Alguém, sem ser família, estava disposto a fazer alguma coisa por mim sem querer nada em troca. Alguém, sem ser família, acreditava que eu era capaz. Pode parecer pouco, mas foi tanto para mim. A partir desse dia comecei a melhorar, com a ajuda e as dicas da Soraia. Melhorei na matemática e na língua portuguesa (eu era boa no estudo do meio) e no último ditado do ano tive seis erros!

Depois da primaria não voltei a ter problemas na escola, nem com nenhum professor. Fui aluna do quadro de honra do quinto ao oitavo ano. O nono ano foi o meu ano de rebeldia, tive a minha primeira nega, faltei por faltar mas ainda assim conclui o ano com média de quatro. No secundário fui, também, uma aluna mediana. A verdade é que situações que decorreram há tanto tempo, moldaram-me na pessoa que sou hoje. O medo de ir para a escola e de professores nunca saiu de mim e voltaram na faculdade - quando suava por todos os lados e todos os meus músculos tremiam quando tinha de ir a algumas aulas da faculdade. Como já era crescida consegui dar a volta à situação, mas eu fui uma criança que viveu o constante medo de errar e só quem passou pelo mesmo sabe o quanto isso pode interferir com o desenvolvimento e aprendizagem de alguém. 

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13 comentários

  1. crescer por vezes é tão difícil :(

    boa semana :):)

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  2. Esperei um bom bocado até começar a escrever o comentário. É que descreveste uma situação que não devia acontecer nunca! Eu tenho um imenso respeito pelos professores. Acho mesmo que são dos pilares mais importantes de qualquer sociedade porque são eles que vão formar e educar as próximas gerações de profissionais e de pessoas. Quanto melhor for a educação, melhor será o futuro. E depois há professores como a que tiveste que não deviam ser autorizados a leccionar. E se há tantos professores maravilhosos, com uma vocação incrível, no desemprego! Qual é o direito de um professor criar uma experiência tão negativa numa criança? E que fantástica a tua colega :)

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  3. Ao ler este teu post relembrei uma situação na escola primária, julgo que no 3º ano, que nunca mais me saiu da cabeça... Matemática... Reduções... A professora pediu-me para fazer uma redução em pé em voz alta e eu disse bem!!! Mas como o meu parceiro era o melhor aluno da turma a professora disse logo: "Só acertaste por que o Bruno te disse". Recordo-me que não fui capaz de responder à professora e fiquei numa tristeza só! Eu sabia que não tinha sido ele a dizer-me nada, que tinha sido por mérito próprio... Só sei que a partir desse momento a matemática começou a ser um dos meus piores pesadelos! Desde o 6º ano que sempre tive nega! E quando se chegou ao 10ºano optei por HUmanidades simplesmente porque não tinha matemática... Enfim... Há professores que nunca deviam ter sido essa profissão pois é uma coisa que pode mesmo interferir muito como o desenvolvimento de uma pessoa!!!

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  4. As pessoas desvalorizam imenso os medos das crianças. Eu fiuei com pena de ti, a sério, nenhuma criança deveria sentir-se assim!!

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  5. Um bom professor é a base do nosso caminho na escola, é aquele que é capaz de nos motivar só com uma expressão. As crianças não aprendem com medo, nem com berros, isso só as intimida, mas os problemas continuarão a surgir. Quem é que disse que uma casa não pode ser roxa? Isso é ridículo, a constante formatação que querem impor às crianças é ridícula.

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  6. Credo, essa professora era mesmo estúpida :O

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  7. Não consigo imaginar o tormento que passaste...eu sempre gostei da escola, tive a sorte de ter uma professora primária que o era por vocação, que adorava o que fazia e que nos ensinava de uma forma excepcional, sem nunca humilhar ninguém. Acho que há cada vez menos professores assim, infelizmente!

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  8. Assim se vê como a infância é poderosa! Há coisas que ficam connosco para sempre!
    - Ana Rita

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  9. Realmente com situações dessas não admira que tivesses medo. Acho sinceramente que a professora podia ter sido mais assertiva e menos histérica em relação aos defeitos que te apontava!

    Bjxxx

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  10. Eu por acaso sempre gostei de ir para a escola, por incrível que pareça xD se pudesse estudava mais

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  11. Bem, com professoras de primeiro ano ocmo a tua... digamos que o medo é normal!

    Mas ás vezes só se precisa mesmo de uma mãozinha, um apoio... em qualquer idade :)

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  12. Já é mau ter professores assim, pior é ser na primária. Tenho tantas boas memórias da minha professora primária que nem entendo como é que a tua era assim.
    E a tua colega foi mesmo querida e nessas idades já os miúdos são tão mauzinhos.

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  13. Também tinha um trauma em ir para escola... Principalmente porque na pré me fechavam num quarto escuro, e eu nem era mal comportada!

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