«Esta é a última oportunidade!»

outubro 23, 2017

Foi esta a frase que mais me marcou do discurso do Presidente da República em reacção aos acontecimentos trágicos do fim-de-semana. Torna-se evidente que houve uma ruptura no tango entre São Bento e Belém mas já lá vou.


100, 100 mortos num espaço de 4 meses. Foram 100 as vidas que sofreram na mão dos fogos florestais, fogos esses que dizimaram hectares e hectares de floresta, que dizimaram habitações, infra-estruturas, terrenos agrícolas, propriedades industriais, ecossistemas... Dizimaram vidas. Vidas. Das vitimas, dos seus familiares, de quem esteve nos teatros de operações, de quem esteve a analisar o rasto de destruição, de quem viu tudo e na realidade não viu nada pelos noticiários. 

O país está de luto. Os políticos empenham armas e formam fileiras no jogo da batata quente. Tudo é culpado. Tudo é desculpa. Tudo é descartável. Tudo está por fazer ou os máximos foram feitos e para mais não dá. Multiplicam-se os apelos, os pedidos de explicação, as afrontas partidárias e institucionais.

E parar e analisar isto a fundo?
Eu tenho umas perguntas que seriam pertinentes.

  • Não será estranho dias antes do, anunciado, regresso da chuva existirem mais de 500 incêndios a lavrar?
  • Não será estranho que na maior parte das áreas afectas aos incêndios estejam barragens?
  • Será normal um sistema de comunicações SIRESP estar sempre a dar asneira e o contrato já estar a dar dividendos aos vencedores do concurso?
  • Será normal a Protecção Civil após os avisos de ventos fortes, pela passagem do furacão Ophelia ao longo da costa, não se ter precavido e activado planos de contingência?
  • Será normal que a famigerada fase charlie esteja dependente do papel e não da realidade prática?
  • Será normal gastarmos dinheiro em submarinos mas para helicópteros e aviões de combate a incêndios é melhor abrir concursos públicos e ganhar sempre o mesmo consórcio?
  • Que um estudo com dois meses tenha dado o Pinhal Real de Leiria como uma bomba relógio, pela falta de manutenção, e ninguém ter ligado nenhuma?
  • Que a dirigente partidária que aprovou o aumento da plantação de eucaliptal, agora venha pedir explicações, reformas florestais e ainda uma votação de menção de censura no Parlamento?
  • Que o partido que criou o concurso público para atribuição de gerência e criação do sistema de comunicações de emergência quando estava no Executivo e onde tem agora os seus homens fortes como directores venha pedir a cabeça do partido em funções executivas por falhas sistemáticas?
  • Não será estranho que mais de 90% dos focos de incêndio sejam em autarquias laranjinhas?
  • Que se «demita» uma ministra em praça pública e se force a Assembleia a tomar uma atitude de força contra o Governo?
  • Será normal deixar sair um incendiário com pena suspensa depois de se provarem os factos do crime que este cometeu?

Como estas tenho mais questões mas chega para chegar a uma conclusão. Esta é a última oportunidade. Não é tempo de entrar em jogos de aproveitamento político. Sim a resposta não foi a melhor mas não é do dia para a noite que alguma coisa vai mudar.

É sim, a última oportunidade, não de deitar abaixo o Governo ou de apresentar a cabeça da Ministra da Administração Interna numa bandeja até porque toda a classe politica, desde à muitos executivos até à data são os culpados desta situação mas sim de planear o futuro e tomar medidas para que isto não se repita. A razão destes acontecimentos terem ocorrido são, em linhas gerais, o acumular de inércia, passividade, desrespeito e despreocupação com a floresta. E isso não é culpa deste executivo. É sim culpa deste mas, também de todos os outros que o antecederam.

Esta sim é a última oportunidade para apurar realmente responsabilidades, avaliar os resultados e aplicar as recomendações dos relatórios das comissões independentes, das Universidades, etc. É a última oportunidade, das vitimas, deste acto dantesco, serem verdadeiramente homenageadas e verem as florestas limpas e ordenadas, com vegetação equilibrada para o ecossistema, que não sirva apenas as indústrias madeireira e do papel. Para que os nossos corpos de bombeiros sejam apoiados com mais meios, remuneração para os seus efectivos e apoio psicológico. Para que realmente se crie um sistema de coordenação de Protecção Civil em conjunto com o comando dos bombeiros para assim o combate e distribuição de meios ser mais eficaz na resposta. Para que o Estado invista em meios aéreos, em equipamentos de logística e comunicação capazes. Para  que a Justiça, através de legislação estudada e aprovada na Assembleia da República, possa agir contra a mão criminosa - que está na origem da maior parte dos incêndios -, e através de uma moldura penal dê respostas eficientes a estes crimes e, principalmente, que o poder económico nunca esteja acima da vida

É altura de todos os quadrantes políticos terem um verdadeiro sentido de Estado. Só assim, com passos firmes, poderemos realmente honrar as vitimas e tentar que esta calamidade não se volte a repetir porque a verdade é esta: Esta é a última oportunidade.

18 de Outubro de 2017, Rui Almeida

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6 comentários

  1. Um exercício bastante lúcido, que coloca o dedo na ferida, que não iliba ninguém e chama todos para convergirem na busca de soluções que não permitam a repetição do que aconteceu este ano.

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  2. É preciso tomar medidas. Ganhar consciência e atuar com antecedência, para prevenir. Porque, infelizmente, muita coisa poderia ter sido evitada, mas, mais uma vez, este jogo de interesses deixou rolar. E a culpa? A culpa, no fundo, é de todos. Porque se cada um fizer aquilo que lhe compete, já está a minimizar os riscos

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  3. Esta situação entristece qualquer um...que as famílias sejam de facto apoiadas e tudo fique um pouco melhor

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  4. Grande crónica,realmente,isto dos fogos este ano,foi desastrosa!! Nunca houve um ano como este em relação a incêndios e a vítimas deles!! Bom resto de semana e curte a vida ao máximo com imensa saúde,paz e alegria!!

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  5. Isto é tudo um negócio, sempre se soube mas parece-me que só grande parte da população se apercebeu disto este ano. Para variar cá as coisas só se fazem depois das desgraças acontecerem, é preciso tantas pessoas e animais morrerem e hectares arderem para fazerem algo.
    E nunca vou entender porque é que os incendiários saem sempre em liberdade mas esses no fundo são o que "menos" mal fazem porque os piores são os que estão por trás, os que mandam dispositivos de aviões e iniciam fogos e no fim aparecerem para lucrar com isso. E quem está envolvido nos negócios do combate aos incêndios como as empresas espanholas que foram denunciadas e estão a ser investigadas.
    Vejam quem mais lucra com os incêndios e rapidamente eles começam a diminuir.

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  6. Concordo e fico muito triste por ver no que o mundo se está a tornar infelizmente. Há muita coisa por trás disto tudo.. enfim.

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